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Como virei judeu honorário


Até duas semanas atrás, eu tinha uma agente literária em Londres. Ela se encarregava de vender os direitos de publicação dos meus livros no exterior e era bastante eficiente. O nosso contrato datava da primeira década dos anos 2000. Ela me fez um judeu.

Mantínhamos uma relação de amizade. A última vez que nos encontramos foi em um café perto Gare du Nord, em Paris, antes de ela pegar o trem para Londres. No ano passado, como não pude ir à festa de aniversário de 25 anos da sua agência, enviei-lhe flores. Ela me respondeu com um email derramado.

O email derramado foi sucedido, quase um ano depois, por um pedido de explicações inopinado. Ela queria que eu esclarecesse porque eu estava “apoiando o genocídio de Israel em Gaza”. Assim, na lata.

Anglo-holandesa, a minha então agente disse que lia os meus artigos com auxílio do Google Translator e que imaginava que a tradução eletrônica poderia estar levando a um engano da parte dela.

Bastante espantado com o seu pedido de explicações, respondi que não apoiava genocídio nenhum, porque Israel não estava cometendo esse crime contra a humanidade, apesar do pesadíssimo número de civis mortos em Gaza. Que o Hamas era o genocida da história, como deixavam claros o seu ato bárbaro em solo israelense, sem previsão em qualquer convenção de guerra, e o seu próprio estatuto, no qual era expresso o propósito de exterminar os judeus.

Eu também disse que Benjamin Netanyahu seria julgado pelos cidadãos da única democracia do Oriente Médio, ao contrário do Hamas, que não seria julgado pelos civis que utilizava como escudos humanos.

Passados cinco dias, ela rompeu o nosso contrato por email. Disse que realmente não esperava que eu tomasse tal posição e que não me representaria mais. Ao final do mensagem, ela escreveu que foi uma honra representar os meus excelentes livros e coisa e tal. Protocolar.

Eu poderia ter sido sarcástico e dito a ela que deveria constar do contrato da agência que era obrigatório que o autor representado concordasse com todas as opiniões dela. Preferi outro caminho.

Respondi simplesmente o seguinte:

“Prezada Laura, apenas para registro, você disse que eu defendia genocídio, o que é muito, muito grave, e eu espero que isso não se torne difamação no meio editorial, mas eu não disse que você era antissemita.”

Enquanto escrevia a curta mensagem à minha ex-agente, lembrei-me do que vi em Israel. Da mãe e da irmã de reféns que relataram como eles foram sequestrados pelo Hamas e como sofriam nas mãos dos seus algozes havia mais de 100 dias, em Gaza.

Omer Shem Tov, de 21 anos completados no cativeiro, filho de Shelly, está trancafiado em um quarto escuro na casa de palestinos. Não pode emitir nenhum som, não tem banheiro, não pode tomar banho, não pode tratar da sua asma, come uma vez por dia uma ração nojenta, está desidratado. O quarto fica ao lado da sala de jantar da casa da família, que vive como se Omer não existisse. Aos prantos, Shelly perguntou: “Eles almoçam e jantam em uma sala dividida por uma parede do cativeiro do meu filho. Como eles conseguem? Isso é normal?”

Romi Gonen, de 23 anos, irmã de Yarden, é constantemente brutalizada pelo Hamas. Foi espancada e é vítima do sadismo dos facínoras que a sequestraram. Eles batem no seu braço gravemente ferido para que ela nunca mais possa usá-lo. Enquanto ouvia o relato de Yarden, sussuram-me que moças israelenses sob o jugo do Hamas evitam ir ao banheiro porco que lhes destinam porque, a cada vez que vão, são estupradas.

Lembrei-me também de que assisti, em Israel, à versão mais atualizada do vídeo que o Exército israelense fez com imagens do ataque de 7 de outubro. Todas foram verificadas. Eu vi dois israelenses terem as suas cabeças decepadas: uma com uma enxada; outra com uma faca. 

Assisti a um terrorista pegando uma coca-cola na geladeira da casa invadida, na frente de dois meninos que haviam acabado de ter o seu pai assassinado por ele. Um dos meninos havia perdido o olho na explosão da granada que o terrorista atirou no abrigo em que a família se refugiara pouco antes.

Assisti a um terrorista matando um cachorro que estava à sua frente. Um cachorro preto, semelhante a um labrador, que estava desorientado com o massacre que acontecia à sua volta.

Assisti ao horror absoluto, e o horror absoluto continua a ser perpetrado pelo Hamas contra os reféns e contra o seu próprio povo, que ele mata pelas mãos de Israel.

Perder uma agente literária não é nada perto do que ocorreu em Israel e ocorre em Gaza. Mas ser alvo de perseguição por estar do lado certo me faz um judeu honorário.



Fonte: Metrópoles


13/02/2024 – Paraiso FM

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