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Apropriação cultural na moda: até onde vai o limite dos influencers?


No universo da moda, a consciência de que usar uma roupa não se resume apenas ao ato de vestir, mas também se comunicar e se posicionar politicamente em alguns casos, é de suma importância — principalmente se você for uma personalidade que influencia milhares de seguidores nas redes sociais.

Peças como o hijab têm um histórico relevante, com bagagem social, política e, sobretudo, religiosa. Porém, no mundo fashion, há uma linha tênue entre apreciação e apropriação cultural em relação ao uso do véu, que se estende em diversas vertentes. Por isso, a coluna traz contextualização sobre o lenço islâmico.

Na imagem com cor, uma mulher com hijab mexendo no celular - Metrópoles
No islamismo, há diferentes tipo de peças religiosas

 

O termo hijab tem origem árabe. O véu é utilizado como símbolo cultural, religioso e de identidade entre a maioria das mulheres mulçumanas, que ficam com os cabelos e o pescoço cobertos pela peça. O item é citado no Alcorão (livro sagrado dos muçulmanos) como um pedido de Maomé (Muhammad) às esposas, para que ele fosse diferenciado e reconhecido com um status especial.

Diferente do que muitos pensam, o hijab não é uma forma de punição ou opressão às mulheres mulçumanas. É, na verdade, uma vestimenta que as caracteriza. O adereço, inclusive, é opcional em quase todos os lugares do mundo — apenas no Irã é obrigatório. Países como França, Suíça, Dinamarca, Áustria, Holanda e Bulgária possuem leis que proíbem totalmente ou parcialmente o uso de coberturas faciais em público.

Na imagem com cor, foto de influenciadora muçulmana usando hijab - Metrópoles
Modelo Iram Abdi Omar

 

Na imagem com cor, foto de influenciadora muçulmana usando hijab - Metrópoles
Modelo Halima Aden

 

Na imagem com cor, foto de influenciadora muçulmana usando hijab - Metrópoles
Modelo Mariah Idrissi

 

Na moda, o uso do hijab — de maneira errada — , gera, ainda, algumas polêmicas. A influenciadora Virginia Fonseca, por exemplo, causou alvoroço nas redes sociais em maio do ano passado ao publicar fotos promocionais de um novo cosmético, registradas em Dubai, nos Emirados Árabes, onde grande parte da população é islâmica.

Na publicação, a empresária estava usando um véu com um vestido brilhante e transparente, o que gerou críticas por suposta apropriação cultural e desrespeito às vestimentas tradicionais das mulheres muçulmanas pela imagem sexualizada. O stylist Rodolpho Rodrigo esclareceu a escolha do vestuário que, segundo ele, não era um hijab, mas sim um capuz.

Recentemente, uma polêmica que envolveu a influenciadora brasileira Lívia Nunes deu mais uma vez destaque à temática. Com um lenço no cabelo, ela compartilhou alguns cliques feitos em Istambul, na Turquia — território quase 100% mulçumano. O post na web foi interpretado como um “momento de moda”, mas a escolha para compor uma narrativa fashion não resultou bem, e a pauta de apropriação cultural logo foi levantada.

Ambas situações, tanto de Virginia quanto de Lívia, podem ser interpretadas como mais um episódio de “mimimi” na internet. Para alguns internautas, as peças usadas não são um hijab — e de fato não parecem ser, talvez apenas possuem semelhanças, mas é aí que está a problemática. O uso peças semelhantes ao véu tradicional de uma religião, que está altamente presente no local onde foram feitos os cliques “fashionistas”, dá a entender que se trata uma tentativa dessas influencers de se inserirem em um meio que não lhes pertence.

Personalidades mulçumanas como Halima Aden, a primeira modelo a posar com hijab e burkini na edição de swimwear da Sports Illustrated em 2019, e Rawdah Mohamed, editora de moda da Vogue Escandinávia, são algumas das figuras que tentam dar mais visibilidade ao assunto no universo fashion. Halima, inclusive, passou a estabelecer limites em trabalhos de moda por já ter se submetido a usar de maneira incorreta o hijab ou se cobrir com peças que não eram o véu em prol das marcas.

Na imagem com cor, a influencer Virginia com hijab promovendo um perfume - Metrópoles
Foto de Virginia com perfume promovido. Ela foi criticada e acusada de apropriação cultural

 

Na imagem com cor, a modelo Halima Aden posando para ensaio fotográfico - metrópoles
Halima de hijab e burkini

 

Modelo Rawdah Mohamed usando hijab
Rawdah Mohamed iniciou o movimento Hands Off My Hijab (Tire Suas Mãos do Meu Hijab)

 

Influenciadora muçulmana explica a polêmica da apropriação cultural

Com a ascensão de influenciadores de moda nas redes sociais, estar dentro das últimas tendências e promover momentos fashion com um simples post no Instagram pode ser algo inofensivo no cotidiano de personalidades como Lívia Nunes e Virginia Fonseca. Contudo, qual é o limite na hora de escolher peças para compor um look? Para a criadora de conteúdo muçulmana Zahra Omarji, é o hijab.

Em um vídeo publicado nessa terça-feira (13/2), Zahra se posicionou e explicou o motivo da revolta em relação a Lívia usando uma peça similar ao véu em um território 99% mulçumano: “Com o aumento da islamofobia no Ocidente, especialmente os crimes de ódio direcionados às mulheres, é mais do que óbvio o porquê do hijab não ser apenas um simples acessório”.

Ela contou ainda que fez comentários na publicação da brasileira. No entanto, posteriormente, foram apagados do perfil. Em um print, Zahra mostrou o que havia escrito: “Existe uma linha tênue entre apropriação cultural e apreciação, e este caso é o exemplo perfeito disso, especialmente porque mostra os duplos padrões do Ocidente. Enquanto os hijabs enfrentam injustiças sociais e políticas por serem usados, o grupo minoritário é sempre criticado, enquanto o grupo não minoritário recebe elogios.”

A coluna entrou em contato com a assessoria de Lívia Nunes, que compartilhou o seguinte comunicado: “Lívia Nunes reconhece o uso indevido do lenço para cobrir a cabeça, em sua passagem por Istambul, no último fim de semana. Ela se desculpa e sente profundamente por ter despertado uma percepção de desrespeito religioso. Lívia agradece o alerta e a orientação de Zahra Omarji em sua rede como forma de ampliar a informação, educação e evolução sobre o tema. Ambas se comunicaram, Lívia compreendeu e desculpou-se diretamente.” Contudo, as imagens continuam no perfil da influenciadora.

Na imagem com cor, foto da influencer Lívia Nunes - Metróples
Após Lívia responder o contato da coluna no Instagram, Zahra Omarji publicou um Story em seguida e confirmou que a brasileira havia se desculpado

 

Na imagem com cor, foto da influencer Zahra Ormaji - Metróples
Zahra contou também que havia sido bloqueada pela brasileira no Instagram e por isso fez o vídeo sobre o assunto

 

Nessa quarta-feira (14/2), Zahra Omarji compartilhou, em um Story, que Lívia e ela conversaram e conseguiram ter uma boa resolução: “A lição mais importante disso tudo é abrir diálogos para explorar tópicos ‘desconfortáveis’ que não deveriam ser desconfortáveis. Além disso, discutir respeitavelmente sobre como a moda e as tendências podem impactar de diferentes formas o dia a dia de alguém.”

Vale ressaltar que, mesmo tendo produzido um vídeo didático, respeitoso e explicativo, a publicação feita pela influenciadora mulçumana foi banida no Tiktok e no Instagram. Ela recebeu mensagens de alerta por supostamente infringir as políticas da comunidade.

Na imagem com cor, foto da influencer Lívia Nunes - Metróples
O uso do lenço na cabeça em um contexto local pode desrespeitar quem é da religião mulçumana

 

Na imagem com cor, foto da influencer Zahra Ormaji - Metróples
Zahra Omarji é criadora de conteúdo na internet

 

De hijab ou não, é preciso manter a mente aberta às possibilidades de desrespeitar alguém ao usar uma peça para cobrir a cabeça em um ambiente muçulmano, se você não é adepto da religião. A moda, nos mínimos detalhes, pode tanto empoderar como esvaziar pautas importantes em um contexto geral.

Quando se tem um público gigante nas redes sociais, qualquer um fica vulnerável a diferentes interpretações alheias. Além disso, uma peça pode ser facilmente descartada em um visual para evitar desrespeito a uma população que já sofre, no dia a dia, o preconceito ao usá-la.



Fonte: Metrópoles


16/02/2024 – Paraiso FM

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